As Inspirações de O Espadachim de Carvão

A série de livros O Espadachim de Carvão narra muito mais do que a saga de Adapak, o semideus de pele negra e olhos brancos. Como disse Thiago Romariz, do site Omelete, Kurgala, o mundo que serve de palco pras aventuras de Adapak, é “um dos melhores universos mitológicos criados por um autor brasileiro” e o próprio cenário pode ser considerado um personagem tão vivo e poderoso quanto todos os outros dentro da trama. E hoje vamos falar de algumas das inspirações que pude identificar pelas páginas dos livros de Affonso Solano.

O autor já declarou algumas vezes que prefere a crueza e brutalidade do Conan do que o idealismo e a sofisticação de O Senhor dos Anéis. Como consequência, tanto o Espadachim de Carvão quanto o Cimério são aventureiros habilidosos, que exploram tanto técnicas de luta quanto estratégias e táticas perspicazes contra os desafios de mundos impiedosos. Não encontraremos muita elegância ou delicadeza em nenhum país da Era Hiboriana ou em Kurgala, cenários mais propícios a estradas infestadas de saqueadores e cidadelas entregues à própria sorte – e ao poder bélico rústico.

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Falando em mundos impiedosos, acredito que Solano também tenha lido bastante do cenário de campanha de D&D Dark Sun, onde os povos são castigados pela aridez do solo e pela escassez de recursos, condicionados à uma sociedade tão selvagem em sua estrutura quanto em seus métodos de caça e sobrevivência. A pedra lascada e ossos são matérias-primas exploradas com criatividade desesperada, enquanto metais e água são tão valiosos quanto joias. Os únicos equipamentos que Adapak sempre carrega são suas espadas gêmeas Igi e Sumi, feitas de osso de anbärr, não que ele tenha muitas opções, pois os muitos personagens d’O Espadachim de Carvão sempre carregam alguma ferramenta rústica e quase nunca usam qualquer metal como proteção ou arma.

Por fim, farei uma comparação um tanto ousada. Kurgala é o lar de incontáveis espécies humanoides – e algumas não tão humanoides – criadas por deuses que abandonaram o mundo há muito tempo, um contexto um tanto similar à Cidadela do jogo de ficção científica Mass Effect. A Cidadela é uma base espacial de origem misteriosa, que serve como um lar pra todas as raças alienígenas que cooperam entre si. Há muitas teorias de que os deuses de Kurgala sejam, na verdade, alienígenas ancestrais que usaram o mundo como um laboratório e que suas raças exóticas sejam seus experimentos, tal qual existe a teoria de que a raça ancestral que construiu a Cidadela em Mass Effect seja o elo perdido que originou todos os povos do presente. Se O Espadachim de Carvão é uma obra de fantasia heroica ou ficção científica, é um debate muito longo e pra outro dia, mas me parece certo que Affonso Solano experimentou os mais diversos ingredientes em sua mistura.

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E essa é a graça de criar um Universo ficcional. A inspiração, a ousadia e o experimento, que levam a lugares inéditos e batalhas dramáticas. Ainda faltam muitos reinos a serem descobertos em Kurgala e muitos mistérios a serem desenterrados nos cantos mais inóspitos, onde os deuses cometeram o erro de crer que nenhum aventureiro teria a audácia de explorar.

PS: Artigo escrito ao som da trilha sonora do jogo Dark Sun: Wake of the Ravager.

Como o Steampunk está dominando a Cultura POP?

Máquinas de guerras expelindo densas nuvens de fumaça negra. Um braço robótico rústico anexado a um cavalheiro trajando o mais fino fraque vitoriano. Um volumoso dirigível vigia uma cidade em plena revolução industrial sob o céu cinzento. Eu não preciso explicar o que é o Steampunk, você com certeza já tem todas essas imagens vívidas em sua mente graças ao cinema, ao videogame ou à literatura. O que me fascina é como um subgênero tem se tornado um fenômeno de toda a cultura pop.

O pontapé inicial foi dado por Júlio Verne, autor de 20.000 Léguas Submarinas, Volta ao Mundo em 80 Dias e Viagem ao Centro da Terra, livros que reinventam o passado com uma tecnologia absurda e charmosa, onde a energia a vapor sustenta maquinários sofisticados e extravagantes – um retrofuturismo. Apesar do termo Steampunk ter surgido apenas décadas depois da sua fundação, o gênero se mantém forte até os dias atuais, com obras como a Trilogia Leviatã – que recria a 1ª Guerra Mundial com nações “mekanistas” batalhando com aparatos mecânicos contra nações “darwinistas” e seus animais monstruosos geneticamente fabricados – sendo lançados todos os anos.

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No Brasil, temos o notório romance A lição de anatomia do temível Dr. Louison situado em Porto Alegre do início do século XX e povoado por aclamados personagens da literatura brasileira, como Rita Baiana e Pombinha, de Aluísio Azevedo e Simão Bacamarte, de Machado de Assis, todos enredados pela investigação dos abomináveis crimes e da subsequente fuga do hospício de um vilão que poderia rivalizar Jack, o Estripador.

Publicado mais recentemente, temos Le Chevalier e a Exposição Universal, que apresenta um espião sem nome a serviço da coroa francesa, a nação mais desenvolvida e requintada do mundo. Naturalmente, tal posição não é ocupada sem ameaças, o que fica evidente quando a Prússia derrota a Áustria e prepara suas peças no tabuleiro europeu para atacar o Império Francês de Napoleão III.

Como livros consagrados costumam ganhar adaptações cinematográficas – como O Poderoso Chefão e Onde os Fracos Não Têm Vez -, as três obras citadas de Júlio Verne receberam suas devidas representações em Hollywood. Consequentemente, o Steampunk se tornou uma opção estética e narrativa frequente no cinema, com belos exemplares como As Loucas Aventuras de James West – mais lembrado pelo bumbum da Salma Hayek – e Van Helsing: o Caçador de Monstros – ninguém esperava um dia ver Hugh Jackman cabeludo usando uma besta semiautomática contra o Drácula. Talvez a pérola cinematográfica mais inesperada não tenha vindo de Hollywood, mas do Japão, através do anime de longa-metragem Steamboy, que recebeu as vozes de Patrick Stewart, Anna Paquin e Alfred Molina na dublagem estadunidense.

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O primeiro game Steampunk foi The Chaos Engine, uma adaptação do romance The Difference Engine, um “run and gun” onde viajantes do tempo visitam a Inglaterra vitoriana e sua tecnologia avançada acaba nas mãos de um inventor, gerando uma linha temporal alternativa. Caso você nunca tenha ouvido falar desse jogo, não se sinta culpado, ele é um tanto obscuro mesmo. Por outro lado, Dishonored, Bioshock Infinite e Thief devem ser mais familiares, comprovando a influência do gênero na cultura pop. Particularmente, meus jogos Steampunk favoritos sempre serão Final Fantasy VI e IX, onde tecnologia retrofuturista se mistura com magia e navios voadores levam os heróis até masmorras habitadas por goblins, fantasmas e dragões.

O Steampunk já faz parte do nosso imaginário. Temos livros, filmes e jogos sendo lançados anualmente e, aos poucos, o gênero está se tornando tão prolífico quanto a Ópera Espacial ou a Espada e Feitiçaria. O tempo vai passar, novos iPhones serão lançados, mas continuaremos reimaginando o passado com o charme vitoriano unido à tecnologia a vapor impossível.

E se você quiser sujar suas mãos de graxa e sentir o odor de carvão, óleo e perfumes, dê uma conferida n’A lição de anatomia do temível Dr. Louison, em Le Chevalier e a Exposição Universal e na pré-venda do primeiro quadrinho de Le Chevalier, Arquivos Secretos vol. 1. Garanto que não se arrependerá da jornada.

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